Explorando o espaço de possibilidades

No último post, desenvolvi um pouco as características que entendo fazer eu curtir jogos. É extremamente pessoal, mas o que concluí foi de gostar de jogos com amplo espaço de possibilidades a ser explorado, que os elementos do jogo façam com que exploremos esse espaço e com um bom elemento de gamefeel. Porém, essa definição parece colocar alguns jogos que não sou tão fã junto de outros jogos que gosto bastante. Por exemplo, eu não sou tão fã de jogos de estratégia ou de simuladores, ambos gêneros que de forma geral possuem um amplo espaço de possibilidades, e no texto sobre Hades também expliquei não ser fã de roguelikes/roguelites. Então o que acontece?

Acho que uma forma de começar a explorar um pouco essa questão, é entender um pouco mais o espaço de possibilidades. Um modelo que conheci recentemente é o de Celia Wagar do blog critpoints.net, que seria mais ou menos assim: podemos pensar em um primeiro nível em todos os estados possíveis no jogo. Esse primeiro nível é o que nos dá a complexidade máxima do jogo. Dentre essas possibilidades, ao removermos os estados redundantes, teríamos um segundo nível (exemplo que Celia dá é pensar em 1 jogo de luta, o boneco A estar a esquerda de boneco B ou a direita, se estiverem igualmente espaçado nas duas situações, são estados funcionalmente idênticos). Por fim, tem os estados relevantes para o jogo, alguns estados como são ruins em qualquer contexto são abandonados pelos jogadores. Quanto maior for esse último nível, mais profundo é o jogo.

Jogos de estratégia, seja RTS ou mesmo jogos como CIVILIZATION, são jogos com os espaços bastante amplos em termos gerais, e pela característica de muitas facções, levels variados em termos de disposição de recursos, gameplay bastante assimétrico, acredito que sejam poucos estados redundantes (em termos relativos) – então do primeiro para o segundo nível, se perde bastantes estados. Do segundo para o terceiro, varia um pouco contra quem se está jogando – se há uma diferença grande entre o skill level, o jogador com menor habilidade vai sofrer um rush, só vai conseguir começar a jogar depois de entender um pouco mais do jogo. E isso me dá um pouco a pista de por que esse tipo de jogo não me agrada tanto, pessoalmente: tenho dificuldades de conseguir explorar o espaço de possibilidades do jogo, porque como jogador pouco experiente para estar em nível mínimo (para estar no “skill floor” do jogo) precisaria “estudar” muito o jogo antes – que é uma forma pouco interessante, pessoalmente, para tentar aprender o jogo. Acredito que o mesmo aconteça com MOBAs, mas esse estilo nunca cheguei a experimentar, por sentir essa “repulsão”.

Além disso, no caso específico de jogos mais estratégicos, o tempo de cada partida costuma ser relativamente longo. Atualmente consigo jogar em torno de 4 ou 5 horas por semana, se for jogar jogos de partidas longas, para acumular um volume relevante de partidas que permitiriam explorar o espaço de possibilidades precisaria de muitas e muitas semanas para estar em um nível minimamente viável para se divertir com o jogo – e nem estou falando de “jogar para vencer” que entendo ser outro mindset distinto. Quando se compara com jogos de luta, que tenho um pouco mais de gosto, acredito que essa seja a principal diferença – mesmo estando em uma situação que “não consigo jogar” pela diferença de skill level, e entendo o quanto isso pode ser frustrante, se separar 30 min pra jogar, consigo fazer 10 partidas, enquanto as vezes isso não é uma partida de um jogo de estratégia.

Isso também reforça as minhas questões com roguelikes. Não é tanto sobre a velocidade de poder explorar o espaço relevante de possibilidades do jogo, é no sentido de não ter a direção de como estou explorando esse espaço. Utilizando Hades como exemplo, que é um jogo que gosto muito, mas mais de uma vez eu quis montar alguma build que acabei não conseguindo, ou seja, teria que fazer outra run com a mesma arma, tentando os mesmos deuses para finalmente conseguir a tática que queria experimentar. Então além da velocidade de explorar o espaço de possibilidades, ser da forma como eu enquanto jogador quero explorar.

Por fim, como um adendo, acho que isso explica um pouco não ser tão fã de jogos de tabuleiro também (salvo algumas exceções). Em minha (pouca) experiência com jogos modernos de tabuleiro em geral, vejo essa questão de partidas longas, vejo a questão de muitas vezes não conseguir fazer o jogo que quero (pela diferença de skill) e tem um agravante que é ter baixa frequência nos jogos. Minha esposa gosta muito de jogos de tabuleiro, mas vejo que quando ela compra um jogo novo, se jogarmos o jogo umas 6 ou 7x é muito, ou seja, todo o ciclo de feedback de aprender alguma coisa do jogo e tentar na próxima vez é cortado cedo. Os jogos de tabuleiro que acabo gostando mais são ou mais rápidos (como jogos de cartas, em que em uma sessão se joga diversas partidas) ou jogos que a interação entre os jogadores é um pouco mais indireta (onde não sinto que a diferença de skill me impeça de tentar alguma coisa).

Pensando nesses casos, me parece que a velocidade e a autonomia para a exploração do espaço de possibilidades são muito relevantes para mim. Mas não me passa despercebido que talvez uma outra ótica sobre isso poderia ser adotada – se pensar em níveis de funções empresariais mesmo, de nível estratégico, tático e operacional, parece que meu sweetspot está em nível tático. E mesmo em outras esferas de minha vida (profissional), também parece que ser onde tenho mais interesse. Por hora, preciso de mais introspecção para explorar por essa ótica, será assunto para um outro post.

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